ARTIGO: A greve, os agricultores e os caminhoneiros

Mário Lanznaster

Eventual nova paralisação, além de obedecer os parâmetros da lei, precisa evitar os males causados a segmentos vulneráveis da sociedade e o risco que corremos de perder o privilegiado status sanitário que a cadeia do agronegócio construiu nos últimos 30 anos

A greve é um direito constitucionalmente assegurado aos trabalhadores e pode ser exercido em condições extraordinárias, nas quais as relações de trabalho e produção perdem o equilíbrio e se desfazem os parâmetros de justiça. Os transportadores se utilizaram desse direito em março deste ano, quando o preço dos combustíveis, dos pedágios e de outros itens de custos se elevaram e inviabilizaram essa essencial atividade profissional e empresarial. 

O modo como se operou, na prática, esse direito e seus reflexos em outra categoria muito sacrificada – os produtores rurais – merecem uma reflexão. Sem meias palavras, é preciso dizer o seguinte: essa greve criou percalços para toda a sociedade, mas gerou sérios prejuízos para as famílias rurais que, ironicamente, apoiaram os caminhoneiros. 

Em quase todo o transcurso do movimento, os grevistas interromperam o fluxo de matérias-primas das áreas rurais para as indústrias - e leite, grãos, frutas, hortigranjeiros, aves, bovinos e suínos deixaram de chegar às agroindústrias. No contrafluxo, rações, pintinhos, leitões e outros insumos deixaram de chegar aos estabelecimentos agrícolas. As indústrias paralisaram a produção por falta de matéria-prima e de local para estocagem dos produtos processados. Os depósitos e os pátios ficaram repletos de mercadorias que não puderam sair em direção aos centros de consumo em razão do bloqueio das estradas. 

O resultado disso foi devastador para a agricultura e o agronegócio em geral, e para a economia das famílias rurais, em particular. É preciso lembrar que o oeste barriga-verde responde por 75% da produção agropecuária do Estado. Foram jogados fora milhões de litros de leite; faltou ração para um plantel permanente de quase 100 milhões de aves e 5,5 milhões de suínos. 

No momento em que se fala na reedição da greve dos transportadores, está chegando a "conta" da paralisação anterior que se situa em cerca de 400 milhões de reais, dinheiro que não circulará na economia catarinense, não entrou na conta dos produtores e faltará no caixa das agroindústrias. 

Eventual nova paralisação, além de obedecer os parâmetros da lei, precisa evitar os males causados a segmentos vulneráveis da sociedade e o risco que corremos de perder o privilegiado status sanitário que a cadeia do agronegócio construiu nos últimos 30 anos, uma conquista que sustenta milhares de empregos e gera bilhões em riquezas, beneficiando famílias urbanas e rurais.

Mário Lanznaster
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