Seca e falta de chuva ameaçam produtores rurais

Para produtores, quanto mais tempo sem chuva, maior o temor por perdas


O veranico ameaça os produtores rurais do Distrito Federal, especialmente os de médio e pequeno portes, que não contam com sistema artificial de irrigação. A situação ainda não é considerada grave, pois a safra atual de grãos não deve ser afetada pela seca e basta maior cuidado para manter as plantações de hortaliças, mas a Secretaria de Agricultura teme um “desastre” caso não chova em janeiro.

“Já são mais de duas semanas sem chuva, então a questão da água nos preocupa”, afirma o recém- empossado titular da pasta, José Guilherme Leal. Ele teme que a ausência de precipitações faça com que o nível dos reservatórios fique baixo e isso provoque transtornos. “Se o calor estivesse acompanhado de chuvas, não existiria problema. Mas, do jeito de agora, as plantas ficam desidratadas”, completa.

Ele informa que as maiores áreas de produção da capital estão concentradas no Núcleo Rural Padef, que corta a BR-251 até a BR-020; no caminho para Unaí (MG), entre Paranoá e Planaltina; e o Núcleo Rural Alexandre de Gusmão, em Brazlândia. “Tentaremos trazer inovação tecnológica para o DF e fortalecer a política de produção orgânica nessas áreas”, assegura.

Os primeiros afetados pela onda de calor – que ocasionou fila de mais de um quilômetro em frente à Água Mineral ontem – são os produtores rurais de menor porte, como Cleuza Gallo, 63 anos. Ela habita o núcleo Capoeira do Bálsamo, próximo ao Paranoá e Lago Norte, e planta essencialmente hortaliças.

“Vimos nossas plantas de folhagem mais sensível, como alface e chuchu, secarem. A gente molhava a horta somente durante o dia, mas agora também temos que fazer isso à noite”, conta.

Custos

Cleuza compara as plantas que cultiva na chácara de 3,5 hectares a filhos (“tem que observar o tempo todo”) e revela ter aumentado custos por precisar contratar mais um funcionário para a irrigação.

A produtora costuma levar 100 pés de alface e 50 de couve, além outras variedades de hortaliças, para feiras em Sobradinho e Lago Norte semanalmente, mas já prevê prejuízos devido à seca combinada com calor. “No próximo fim de semana, já não sei quanto vou conseguir entregar”, conclui.

Previsão do tempo

De acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), uma massa de ar seco e quente paira sobre a região central do País, cobrindo também parte da região Sudeste e da Bahia. Isso impede a entrada de frentes frias e diminui as possibilidades de chuva. Não há previsão de precipitação pelo menos até 19 de janeiro.

Grãos escampam da seca

Para quem sobrevive do comércio de grãos, o atual cenário, por enquanto, está longe de ser desesperador. Feijão e soja, por exemplo, já estão na fase da cultura em que o grão está formado e a seca pouco interfere a partir deste ponto. Para a manutenção da colheita, no entanto, é importante regularidade no período chuvoso.

Ivo Gonzaga, de 78 anos, que há 20 anos faz cultivo de grãos em sua chácara no Núcleo Rural do Rio Preto, em Planaltina, se preocupa com o milho. “Agora em fevereiro colhemos a soja e o feijão, mas o milho nós plantamos logo depois, na chamada 'safrinha'. Se estiver muito seco desde o começo, vamos ser prejudicados”, avalia.

Ele diz que um rendimento estimado de 120 sacas do grão, com 60 quilos cada unidade, pode cair até cem, dependendo das adversidades climáticas. “A chuva não está regular, está escassa. Para o Distrito Federal, o ideal seria uma base de 1,4 mil mm de água entre outubro e começo de abril, mas a estimativa é que caia apenas 1,2 mm”, acrescenta Gonzaga.

Irrigação

Para sua chácara de cem hectares, o produtor utiliza sistema de irrigação artificial quando preciso, mas pondera que está é uma alternativa inviável para muita gente. “É uma tecnologia muito onerosa, então quem tem geralmente é grande produtor”, diz, e completa: “Já houve outras ondas de calor assim, mas ultimamente isso tem sido agravado”, queixa-se.

Estudo local vai avaliar prejuízos

A Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater-DF) ainda elabora estudo para avaliar possíveis prejuízos e perdas devido ao veranico, além de levantar dados relacionados ao abastecimento da capital por sua própria produção agrária. Até lá, a recomendação da empresa aos ruralistas é fazer bom manejo do solo para as próximas safras, com matéria orgânica e plantio direto, o que pode amenizar os efeitos da seca.

“Quando são feitos os financiamentos para agricultura, é contratado um seguro em virtude da previsão do tempo e perdas”, explica o novo presidente da Emater, Argileu Martins da Silva. “Se a situação se intensificar, os técnicos instruirão os agricultores a acionar seus seguros para manter os financiamentos”, aconselha.

Posse

Na manhã de ontem, o governador do Distrito Federal, Rodrigo Rollemberg, e o novo ministro do Desenvolvimento Agrário, Patrus Ananias, compareceram ao empossamento de José Guilherme Leal na pasta de Agricultura, Argileu Martins na Emater e Renato Lima Dias nas Centrais de Abastecimento do Distrito Federal (Ceasa). 

O ministro prometeu apoio federal “em relação à extensão rural, novas tecnologias e aumento de produtividade”, enquanto o governador Rodrigo Rollemberg exaltou a importância dos produtores para a cidade. “A cidade não pode viver sem o meio rural. Os produtores contribuem para a preservação da água e a qualidade de vida da população”, ressaltou o chefe do Executivo.

Regularização de áreas rurais em pauta

Durante a cerimônia de posse, o secretário de Agricultura, José Guilherme Leal, afirmou que a regularização das áreas rurais é a prioridade da pasta. "Esse é um processo que foi iniciado na gestão anterior. Temos mais de seis mil áreas de produção no DF. Dessas, 500 têm apenas contratos de concessão de uso, que não são definitivos", afirmou o secretário.

A manutenção corretiva das estradas rurais também está entre as primeiras ações. "Estamos encomendando um levantamento da situação das estradas. A partir do resultado, trabalharemos com o pouco de máquinas que temos aqui e com o Departamento de Estradas de Rodagem (DER) para fazer a manutenção corretiva nos principais trechos", disse. 

O novo dirigente da Emater disse que tudo fará para que o DF seja uma referência nacional no quesito de segurança hídrica e alimentar. Renato Dias, da Ceasa, destacou que o objetivo será prestar um serviço de qualidade.
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