Luta para preservar o cerrado

Thaís Paranhos

Com muito trabalho e o próprio dinheiro, brasilienses criam mecanismos no intuito de manter vivo o bioma e assim garantir, entre outras medidas, o abastecimento da água consumida no Distrito Federal. Com auxílio técnico, programa do governo apoia iniciativas

Na propriedade de Hélio Eustáquio da Silva, 51 anos, a água brota da terra na mesma velocidade com que a paisagem verde se transforma. O sistema da natureza funciona de forma perfeita, sem interferência humana. Só há intervenção quando o objetivo é preservar o cerrado e permitir que a vegetação nativa se reconstitua. Hélio faz parte de um grupo ainda pequeno, mas crescente de adeptos no Distrito Federal. Preocupados com o meio ambiente e com o bem-estar das gerações futuras, eles se dedicam a cuidar do bioma no Planalto Central. 

Qualquer propriedade rural no DF deve ter, pelo menos, 20% da área reservada para a preservação, de acordo com o Código Florestal. Mas Hélio, assim como outros brasilienses, não se contenta com essa porção. Há 15 anos, ele trabalha para transformar o terreno em Brazlândia, no Núcleo Rural Alexandre Gusmão, em uma grande porção de cerrado. Dos 20 hectares, cinco são de mata nativa, com seis nascentes e 5 mil exemplares de espécies típicas do bioma plantados nos últimos anos. A meta é deixar metade da propriedade coberta pela vegetação. "O homem precisa aprender a viver em equilíbrio com a natureza, ele se esqueceu de que foi ela que nos deu tudo", ressalta. 

O corretor de imóveis procurou auxílio na OnG Rede de Sementes e no Instituto Brasília Ambiental (Ibram) para recuperar a área degradada. Mas todo o esforço e o gasto são por conta dele. "Sou responsável pela manutenção, pelo trabalho de roçagem do terreno e do espelhamento, um buraco aberto em volta das mudas para evitar que ervas daninhas prejudiquem o crescimento delas", explica. E uma coisa leva a outra. As árvores já crescidas protegem as nascentes da propriedade. Uma delas é o berço do Córrego Bucanhão. "Essa água cai na barragem do Paranoá e mata a sede da população do Plano Piloto, de Taguatinga e de Ceilândia. É muita responsabilidade", observa. 

Árvores frutíferas 

Hélio comprou o terreno há 15 anos e fez grandes alterações na paisagem desde então. O objetivo era manter uma propriedade de subsistência, mas o gasto era muito alto, e hoje a área tem a finalidade de lazer para a família. O corretor criou um sistema agroflorestal no qual espécies nativas de cerrado convivem com árvores frutíferas, como framboesa, graviola e acerola. Além disso, três das cinco nascentes foram canalizadas para os moradores e visitantes conseguirem aproveitar a água com o mínimo de impacto possível. "Não usamos nem energia elétrica, para não interferir na natureza. Uma roda é a responsável por levar o líquido até a casa. São 16 mil litros de água em 24 horas", explica. 

Mesmo com tanta disposição para proteger a paisagem verde, Hélio esbarra em dificuldades impostas até pelo governo. Ele tenta na Justiça impedir que a União coloque uma rede de alta-tensão dentro da propriedade. "O governo também plantou pinheiros numa área próxima daqui, só que é uma espécie exótica, que puxa a água do solo, sem contar que queima com facilidade no período de seca", queixa-se. "Uma vez, estava cortando um pinheiro e seguranças da Floresta Nacional entraram aqui armados para me impedir. Expliquei que estava consertando o que o governo havia feito. Estamos indo na contramão do poder público", completa. 

Ajuda técnica 

O Programa Adote uma Nascente ajuda os donos de propriedades Rurais no DF a recuperarem e conservar áreas de nascentes. Os interessados podem se inscrever no projeto e agendar uma vistoria técnica para avaliação dos parâmetros físicos-químicos da água e recolher dados geográficos e ambientais. Se aprovado, os proprietários recebem ajuda técnica e um certificado. Mais informações pelo site www.ibram.df.gov.br
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