Transportes em nova rota


Danilo Fariello e Geralda Doca

Governo editará MP das ferrovias para estimular concessões, o que deve atrasar leilões


O governo federal vai reformular a área de transportes, em busca de uma gestão mais eficiente que atraia investidores para as concessões. A mudança começará pela área de ferrovias. Nos próximos dias, será editada uma Medida provisória que acaba com a Valec Engenharia, Construções e Ferrovias e cria a Empresa Brasileira de Ferrovias S.A. (EBF). Pela minuta do texto, a nova empresa terá como atribuição gerenciar a demanda da malha férrea que será concedida à iniciativa privada pelo Programa de Investimentos em Logística (PIL), lançado há um ano, mas que ainda não saiu do papel. 

Se, por um lado, a mudança deve agradar ao setor privado - já que a Valec é costumeiramente associada a má gestão -, por outro, deverá comprometer o cronograma de concessões de ferrovias, dada a incerteza regulatória que uma MP em tramitação traz ao mercado e aos órgãos de controle. O primeiro leilão seria o trecho da Ferrovia Norte-Sul de Açailândia (MA) a Barcarena (PA), no dia 18 de outubro. 

- Nós estamos trabalhando com a possibilidade de o processo ter continuidade e, se houver atraso, é compreensível, porque é um modelo novo. Vamos adaptar o nosso cronograma, as nossas datas, a partir da liberação do Tribunal de Contas da União (TCU) - disse ao GLOBO o ministro dos Trans-portes, César Borges. 

NOVOS TRECHOS CONCEDIDOS 
Prestigiado pela presidente Dilma Rousseff, que deu sinal verde para as mudanças, Borges confirmou ao GLOBO a reestruturação do setor de transportes. No caso das ferrovias, além do fim da Valec e da criação da EBF, haverá nova distribuição dos trechos a serem licitados em relação aos previstos inicialmente. Serão levados a leilão os trechos da Norte-Sul de Ouro Verde (GO) e Estrela D"Oeste (SP), que deverá ficar pronto em 2014, e também o trecho de Palmas (TO) a Anápolis (GO), com previsão de conclusão das obras até março. 

No caso de concessão de uma Ferrovia já pronta, a EBF poderá atuar como gerenciadora de demanda nesse projeto experimental já no próximo ano, sem ter de esperar cinco anos para começar a desempenhar esse papel - prazo que uma Ferrovia costuma demorar para ser construída. Também para destravar as ferrovias em construção, no próximo mês, deverá ocorrer a primeira licitação de trilhos para abastecer trechos da Norte-Sul e da Ferrovia de Integração Oeste-Leste (Fiol), com previsão de conclusão até o início do próximo ano. As licitações anteriores, de 150 mil toneladas de trilhos, foram interrompidas por orientação do TCU e fatiadas em compras menores, de 40 mil, que agora terão início. 

O ministro revelou ao GLOBO detalhes da nova empresa que substituirá a Valec. Além de construir ferrovias e administrar garantias e capacidades das linhas concedidas, também vai regular o Operador Ferroviário Independente (OFI) e o Gestor de Infraestrutura (GIF), figuras novas no modelo proposto na MP. 

Depois do envolvimento da Valec em escândalos financeiros - que levaram seu ex-presidente José Francisco das Neves, o Juquinha, à prisão - o Ministério dos Transportes quer reforçar a qualidade da governança da nova estatal com um conselho de administração mais fortalecido. Tudo isso para aumentar o apetite dos concorrentes dos leilões, que agora devem superar os R$ 91 bilhões em investimentos em 35 anos. 

HIDROVIAS SERÃO LEILOADAS 

A Medida provisória que acaba com a Valec, enviada à Casa Civil na semana passada, é a primeira parte de um projeto mais amplo de reestruturação do setor de transportes. O Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) também deverá trocar de nome. Vai virar Departamento de Infraestrutura Rodoviária (DIR) e ser enxugado, para cuidar apenas de Rodovias. A Companhia Docas do Maranhão vai se tornar Empresa Brasileira de Hidrovias (EBH) para cuidar do transporte pelos rios, que deverão entrar na lista das concessões de uma segunda etapa do PIL. A proposta de reforma dessas duas autarquias já saiu do Ministério dos Transportes e está sob análise no Planejamento. 

- Aproveitamos a estrutura existente e não criamos novas estatais - disse Borges. - No caso das hidrovias, é preciso fazer uma série de intervenções e, dentro do DNIT, não vejo essas questões tendo o enfoque e a importância que merecem. 

Há cinco meses no cargo, o ministro que recolocou o seu partido, o PR, na pasta ganhou força dentro do governo. As mudanças visam a tornar as concessões do setor mais competitivas e atrair mais investidores, movimento tido como fundamental pelo Palácio do Planalto para a retomada da economia e para o sucesso da candidata Dilma nas eleições do próximo ano. 

Números 

91 BI DE REAIS 
São os investimentos esperados para o setor de Ferrovia com os leilões 

35 ANOS 
Prazo dos leilões 

18 DE OUTUBRO
Seria o 1º leilão de um trecho da Norte-Sul, de Açailândia (MA) a Barcarena (PA),mas deve ser adiado


Otimismo no leilão de rodovias: segundo o ministro dos Transportes, as Rodovias que serão concedidas no próximo dia 18 têm investimentos e riscos mais limitados 

O leilão das Rodovias BR-050, de Goiás a Minas Gerais, e BR-262, do Espírito Santo a Minas Gerais, no próximo dia 18, será o primeiro teste do Programa de Investimentos em Logística, lançado há mais de um ano pelo governo federal para atrair R$ 133 bilhões em concessões de Rodovias e ferrovias. Desde agosto de 2012, o programa é ajustado para atrair investidores. 

Qual é sua expectativa para o leilão? 

Nas Rodovias, há consenso no mercado de que todas as dúvidas foram dissipadas e que estamos andando para ter sucesso. A informação que tenho é que o primeiro leilão terá muitos participantes. As empresas estão estudando isoladamente (e não em consórcios). O que está se colocando na mesa é uma quantidade grande de editais, então elas têm me dito que estão avaliando entrar individualmente. Não tenho dúvida de que as empresas vão submeter a decisão a seus acionistas, mas elas estão todas interessadas em participar de Rodovias de modo geral. E acho que, de modo particular, essas primeiras terão o maior número de participantes. 

Primeiro, porque o investimento não é dos maiores, consequentemente os riscos são mais limitados. Além disso, há possibilidade de sinergias por empresas que estão nas proximidades dos lotes (concessões já feitas). 

Há pendência no programa de concessões? 
Os programas são novos e temos procurado clarear as dúvidas. Diria que estamos à exaustão negociando com o setor privado. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, está organizando o setor bancário, com sindicato de bancos e funding do BNDES. O setor privado dizia que o processo dependia ainda das condições de financiamento. Nós tivemos diversas reuniões para discutir questões como alavancagem, a taxa interna de retorno e o Equity Support Agreement (modelo que permite aumento de capital dos consórcios para resolver eventuais problemas de financiamento). Isso será muito bom para o Brasil daqui em diante, porque abre porta para botar de pé projetos estruturantes sem onerar o capital das empresas. 

Qual o perfil dos concorrentes esperados? 

Costumamos associar concessões a construtoras. Elas são importantes, mas não são muitas vezes a operadora. A CCR é um exemplo de operadora criada por construtoras, mas há outras formadas a partir de diferentes empresas, no setor de ferrovias. Queremos envolver todos os setores. Elas podem ser acionistas, mas queremos jogar com outros capitais da economia. No caso da Ferrovia de Açailândia (MA) a Barcarena (PA), por exemplo, nos reunimos com todas as tradings agrícolas, que estão em Vila do Conte (PA). (Danilo Fariello e Geralda Doca) l
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