Quando melhorar...


Celso Ming

Terça-feira, o ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, garantia que, "em cinco ou seis meses, quando a economia melhorar"



Terça-feira, o ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, garan­tia que, "em cinco ou seis meses, quando a economia melhorar", a presidente Dilma terá voltado a desfrutar do prestígio junto à popu­lação e do apoio político perdido nos últimos meses.

É uma afirmação que se baseia em pressupostos e condicionantes que convém examinar. Fica reconhecido que a perda de chão políti­co sob os pés da presidente Dilma não se deveu a súbitas mudanças de estado de espírito de uma população temperamental, mas aos desarranjos da economia, que se espera agora seja consertada. Não é difícil de dentificar os dois principais: a escalada da inflação e o cresci­mento econômico insatisfatório. Mas há outros: os rombos crescentes nas contas externas, uma indústria que sofre de atrofia nas pernas e, prin­cipalmente, a condução deficiente das contas públicas (política fiscal).

Esse reconhecimento implícito dentro do governo não deixa de ser novidade. Até agora, nossas autorida­des não identificavam nenhum pro­blema grave. A inflação, por exemplo, era coisa temporária, causada por fa­tores externos e de reversão garanti­da. Com alguma paciência, logo viria a convergência, mais ou menos es­pontânea, para a meta.

O diagnóstico oficial para o PIB fra­co era da mesma ordem. A crise exter­na e a recessão dos países ricos ha­viam encurtado o mercado para o pro­duto brasileiro, mas, logo depois da primeira curva, viria aí o "pibão grandão" de nada menos de 4,0% a 4,5% ao ano (algumas áreas do governo projetavam até 5,0%), que tiraria as diferenças. Afora isso, os números do pleno emprego e do consumo interno robusto passavam atestado de saúde da economia.

Não basta o reconhecimento do mi­nistro, e do governo, de que alguma coisa desandou. É preciso entender por quê. E,. outra vez, o governo não parece interessado no diagnóstico.

Parece óbvio que ela se deveu às aplicações experimentalistas de polí­tica macroeconômica adotadas pelo governo Dilma. Foi a tal Matriz de Política Econômica, que se baseou na derrubada dos juros sem fundamenta­ção técnica suficiente (meta dos ju­ros em substituição à meta de infla­ção), na adoção de uma política orça­mentária flácida, em nome da necessi­dade de adotar critérios anticíclicos (mais despesa em tempos de produ­ção mais baixa) e no incentivo ao con­sumo sem correspondência na capacidade de oferta da economia.

Isso significa que, para garantir a virada, não basta submeter a econo­mia a alguns ajustes de circunstância e incentivar os puxadinhos de sem­pre. É preciso mais.

É um equívoco, por exemplo, afir­mar que a política fiscal do governo Dilma seja um descalabro. Apesar dos problemas, não é. Ela é apenas insuficientemente rigorosa para asse­gurar os objetivos pretendidos. Por isso, também, é a mãe das distorções.

Menos rigor na administração das contas públicas estufa o consumo, abre rombo nas contas externas e exi­ge um esforço excessivo da política monetária (política de juros) para controlar a inflação.

Tudo isso também provoca dete­rioração da credibilidade do gover­no, retrai os investimentos e leva o consumidor a atitudes bem mais conservadoras na administração do seu orçamento doméstico. A re­dução do apoio à presidente Dilma é consequência de tudo isso.

Já foi dito algumas vezes nesta Coluna que dá, sim, para reverter a situação adversa para o governo. Mas não custa repetir. A melhor sugestão nesse sentido foi manifes­tada pelo ex-ministro Delfim Net- to. Para ele, o choque de credibili­dade que mudaria muita coisa de­pende de que o governo federal as­suma o compromisso formal de perseguir e atingir, em três ou qua­tro anos, o déficit nominal zero na condução das contas públicas. Com isso, receitas e despesas (in­cluídas as dos juros da dívida) do governo se equilibrariam, a dívida cairia em relação ao PIB e os inves­timentos voltariam a fluir.

Como não há nada de novo na administração da economia - a não ser a atuação mais realista do Banco Central a partir de abril também não dá para contar com que, em apenas cinco ou seis me­ses, melhore o desempenho da eco­nomia, como quer o ministro Gil­berto Carvalho.
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