É câmbio ou é salário?


Celso Ming

Alta do dólar é perda de salário. Para quem não tem intimidade com economia, parece difícil entender que o câmbio, ou seja, o preço da moeda nacional em relação a outra, corresponde também ao poder de compra do salário



Alta do dólar é perda de salário. Para quem não tem intimidade com economia, parece difícil entender que o câmbio, ou seja, o preço da moeda nacional em relação a outra, corresponde também ao poder de compra do salário. "Se meu salário é em reais e está fixado no meu contrato de trabalho, por que varia de acordo com a cotação do dólar"? - é o que tanta gente pergunta, especialmente agora que o câmbio segue aos solavancos.

Talvez fique mais fácil entender essa relação se, em vez de salário, tomarmos o conceito de renda, que corresponde ao valor da produção, o mesmo que Produto Interno Bruto (PIB). Esse bolo é distribuído pela população, em fatias maiores ou menores, dependendo da condição de cada um. Se o câmbio está valorizado, ou seja, se em reais se compram mais dólares, a renda também é puxada para cima, isto é, o salário ganha maior poder de compra em moeda estrangeira. Do ponto de vista da produção, salário mais valorizado devido à alta do dólar implica mais custos de produção (salário mais alto em dólares). E, do ponto de vista do comércio exterior, salário elevado compra mais mercadorias importadas. Por isso, o câmbio valorizado pressiona a balança comercial: a população come parte do que seria exportado, o que derruba as receitas com exportações e aumenta as importações.

Numa situação de crise econômica, sobretudo quando essa crise atinge as contas do País com o exterior, é preciso conter os salários. Um jeito impraticável de fazer isso é o governo baixar um decreto que reduza, digamos em 20%, todos os salários, proventos, honorários, aluguéis, dividendos, enfim, tudo o que for considerado renda. É mais prático, simplesmente, desvalorizar a moeda: o dólar estava a R$ 2,15 e passa a R$ 2,40.

A manobra é semelhante ao que ocorre quando o governo quer poupar energia elétrica no verão. Seria complicado garantir o cumprimento de um decreto assim: a partir de amanhã, todos vão se levantar e dormir uma hora mais cedo. É claro, não funcionaria. É mais prático decretar o horário de verão com o adiantamento nos relógios em uma hora.

Antes da criação do euro, os alemães perceberam que não podiam contar mais com a capacidade de determinar a política cambial, porque a moeda passaria a ser comum aos 17 membros, como é hoje. Com isso, viram que não podiam aumentar suas exportações com manobras de desvalorização da moeda nacional. O que fizeram? Para garantir sua competitividade dentro e fora do bloco, os alemães fizeram no governo Gerhard Schroeder um acordo nacional, que envolveu políticos e sindicatos, determinando a redução dos salários. Foi como diminuíram os custos de produção sem recorrer à desvalorização cambial. Uma das maiores queixas dos demais sócios da área do euro é que os alemães jogam duro ao aceitar sacrifícios insuportáveis que depois querem impor aos vizinhos.

No Brasil, fazemos o contrário. Em razão de vários fatores (inclusive da valorização do real diante das outras moedas fortes), os salários vêm aumentando muito acima da produtividade do trabalho. O resultado (entre outras questões) é mais consumo, menos investimento e uma indústria cada vez mais anêmica.
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