À espera do piloto


Celso Ming

Pelo menos nesta administração Bernanke, o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) vinha mantendo ampla transparência



Pelo menos nesta administração Bernanke, o Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) vinha mantendo ampla transparência. Mas é exatamente nesse item, em que se considerava referência global, que agora o Fed está sendo fortemente criticado.

No entanto, provavelmente não se trata neste momento de ser mais ou menos transparente. Trata-se mais de incapacidade de saber o que deve de fato acontecer.

A novidade que assombra o mundo financeiro é a perspectiva de desmonte da gigantesca operação monetária de recompra de títulos pelo Fed, cujo estoque já atinge US$ 3,4 trilhões e que cresce ao ritmo de US$ 85 bilhões por mês. Claro, essa dinheirama corresponde à impressão de dólares pela usina do Fed, com o objetivo de estimular a recuperação da economia dos Estados Unidos.

Apesar das críticas dos ultraortodoxos, hoje sobram poucas dúvidas de que essa mega emissão de moeda salvou a economia mundial de um desastre de proporções incomensuráveis. No entanto, mais cedo ou mais tarde, teria de começar a ser revertida.

Em 22 de maio, o presidente Bernanke já havia avisado que, no final deste ano, pretendia iniciar a operação desmonte. Não se trataria ainda nem de desova dos títulos mantidos em carteira nem de estancamento do despejo de dólares. Essa primeira etapa se limitaria à redução das emissões mensais.

O mercado entrou em pânico porque se sentiu na escuridão. Os títulos perderam valor, os juros subiram, praticamente todas as moedas se desvalorizaram, com exceção do dólar (a mercadoria que tende a deixar de ser tão abundante quanto está sendo hoje), e o valor dos ativos de risco, especialmente os negociados nas bolsas, despencou.

Não houve nenhuma indicação sobre quando a nova política começaria a acontecer e em que proporção. O comunicado do Fed da última quarta-feira também não foi mais esclarecedor. E, nos dias seguintes, alguns dos seus diretores, cada um por si, expuseram o que gostariam que fosse feito, lançando ainda mais confusão no mercado.

Na última sexta-feira, a diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional, Christine Lagarde, criticou as falhas de comunicação do Fed. E essa passou a ser a percepção geral.

No entanto, o problema mais grave não é o desconhecimento de um cronograma ou de critérios que pudessem definir a ação do Fed, mas o de quem vai comandar a operação. O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, já anunciou que Bernanke não deverá ser reconduzido ao cargo em fins de janeiro para um terceiro mandato. Isso significa que até mesmo o Fed não dispõe de elementos mínimos para guiar os cegos nesse momento grave, em que o navio corre riscos. Um banco central não opera no piloto automático nem é um drone teleguiado.

Isso parece significar que, enquanto não se souber quem será o novo presidente do Fed e quais seus planos, o mercado financeiro internacional continuará sujeito a enormes oscilações e a ondas de pânico.

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