Henry Paulson: "Não devemos ver o crescimento econômico e a proteção ambiental como rivais"


Ex-secretário do Tesouro americano e atual conselheiro do governo chinês diz que o país asiático está se tornando mais verde





Henry Paulson, ex-secretário do Tesouro dos Estados Unidos, durante palestra na Universidade Johns Hopkins, em 16 de fevereiro de 2010 (Foto: Alex Wong/Getty Images)

Henry Paulson tem um currículo para poucos. Entre 1998 e 2006, ele foi eleito CEO do Goldman Sachs, um dos maiores bancos de investimento em Wall Street, onde trabalhou por 32 anos. A carreira bem-sucedida na iniciativa privada o fez assumir ainda em 2006 o posto de 74º secretário do Tesouro dos Estados Unidos. Paulson ocupou o cargo até o fim da gestão George W. Bush, em 2009, e teve de enfrentar a crise financeira de 2008, pela qual foi considerado um dos maiores culpados por não conseguir vencer a recessão. Mas até a revista Time, que o considerou um dos 25 culpados pela crise, admite que sua tarefa não era fácil. “Dadas as realidades políticas e econômicas que ele enfrentou, não havia uma trilha óbvia para Paulson percorrer”, afirmou.


Em meio a seu trabalho, o ex-banqueiro nunca escondeu seu engajamento em causas ambientais. Desde a década de 1990, ele trabalhou com sua mulher, Wendy, na Nature Conservancy, uma das maiores organizações ambientais sem fins lucrativos no mundo. E, após largar a vida pública, continuou como ativista. Em 2011, Paulson fundou o Instituto Paulson, que advoga o crescimento sustentável pelo mundo, com foco nos Estados Unidos e China. Atualmente, a organização aconselha o governo chinês a encontrar um caminho mais verde que o atual. A tarefa não é fácil, visto que o país queima 47% do carvão consumido no mundo. Nada que abata Paulson. “Os líderes da China têm urgência em lidar com esses problemas porque o povo está demandando mudanças, e nós estamos vendo uma combinação de demanda e poder que poderá produzir um modelo mais sustentável de crescimento”, diz. Mas ele entende que a tarefa não será fácil. “Mesmo sendo razoavelmente otimista, acredito que essas mudanças levarão tempo e serão difíceis”, afirma.


ÉPOCA – O senhor acredita que a poluição do ar na China continuará a piorar?

Henry Paulson – Um dos fatores mais determinantes para o futuro do meio ambiente e da energia no mundo será a urbanização chinesa nos próximos 25 a 30 anos. Nesse período, o país espera colocar mais 300 milhões de pessoas nas cidades, o mesmo que criar uma Nova York a cada ano. Este é um desafio imenso e uma oportunidade em potencial para o governo chinês acertar sua urbanização de maneira que ela seja sustentável, eficiente e sã, em termos ambientais. É por isso que o Instituto Paulson está trabalhando com o governo da China. Eu acredito que esta é uma das questões mais importantes do nosso tempo, e devemos nos interessar em buscar a urbanização do modo mais racional e sustentável o possível.


ÉPOCA – A capacidade instalada de energia renovável na China está crescendo de maneira mais rápida que em qualquer outro país. O senhor acredita que ela conseguirá reduzir significativamente a demanda chinesa pelo carvão?

Paulson – Como um dos maiores líderes da China me disse uma vez, os Estados Unidos deram ao país um modelo falho de desenvolvimento. Se o chinês comum quiser viver e consumir como o americano comum, a Terra simplesmente não terá recursos para sustentar-se. Os novos líderes da China compreendem que precisam de um novo modelo de crescimento, que seja sustentável e produza prosperidade a longo prazo. Esta transição exigirá novos incentivos, mudanças na legislação e o fortalecimento de instituições que trabalham para proteger o meio ambiente. A China também é uma economia muito mais complexa que há 10 ou 15 anos, e haverá resistência às mudanças. Mesmo sendo razoavelmente otimista, acredito que essas mudanças levarão tempo e serão difíceis.


ÉPOCA – Mas a China queima 47% de todo carvão que é consumido no mundo. O país pode manter sua taxa de crescimento e ser sustentável ao mesmo tempo?

Paulson – Apesar de os chineses terem metas ambiciosas para lidar com seus desafios ambientais, eles estão perdendo espaço em áreas importantes. Em várias cidades e rios, a poluição está piorando. E aí me pergunto: qual é o valor de conseguir outro ponto no PIB se pessoas estão morrendo? Os líderes da China têm urgência em lidar com esses problemas porque o povo está demandando mudanças, e nós estamos vendo uma combinação de demanda e poder que poderá produzir um modelo mais sustentável de crescimento.


ÉPOCA – Com a renda chinesa aumentando, como o governo pode conscientizar o público sobre sustentabilidade e os riscos do consumo abusivo?

Paulson –
Eu acredito que nós não devemos ver o crescimento econômico e a proteção ambiental como rivais. Eles estão no lado oposto da mesma moeda, porque um meio ambiente saudável é necessário para sustentar uma economia saudável a longo prazo. Os recursos naturais sempre foram tradicionalmente vistos como um bem gratuito, mas o mundo está chegando a um limite em que as demandas por eles cresceram tremendamente. E nós precisamos proteger nossos ecossistemas para trilhar um caminho econômico sustentável. Isso significa que as maiores economias do mundo, incluindo a China, os Estados Unidos e o Brasil, precisam construir o modelo econômico correto para ter prosperidade por muito tempo.


ÉPOCA – O senhor diria que o governo comunista, por ser uma tecnocracia, é capaz de tomar medidas eficientes e capazes de reduzir as emissões do país?

Paulson – O governo chinês tomou inúmeras medidas para lidar com esses problemas. A China já tem mais capacidade instalada de energia eólica que os Estados Unidos, e provavelmente produzirá mais que 100 gigawatts somente nesse campo até 2020. O país também terá o maior mercado de energia solar, triplicando sua capacidade nos próximos anos. E, em seu novo plano quinquenal, o governo planeja reduzir as emissões de carbono em 40% a 45% até 2020. É a primeira vez que fazem isso. Estes objetivos são agressivos e, julgando pelo desempenho passado do país, ainda não sabemos se ele conseguirá atingi-los a tempo.

Apesar desses investimentos gigantescos em energia limpa, as iniciativas ambientais da China foram sobrepujadas pelo crescimento arriscado do país nas últimas décadas. A nação chinesa precisa de um novo modelo de crescimento, com incentivos capazes de mudar o comportamento coletivo de líderes políticos e de negócios e indivíduos. Essa mudança sistêmica, particularmente dentro da complexa economia chinesa, é historicamente sem precedentes e será muito complicada.


ÉPOCA – A curva ambiental de Kuznets é uma hipótese acadêmica que sugere que os países só podem tornar-se mais limpos após ficarem ricos. Você acredita que a China, agora vista como a maior vilã do meio ambiente no mundo, está pagando o preço por estar crescendo muito após os Estados Unidos e Europa?

Paulson – Nós somos a primeira geração com conhecimento e tecnologia suficientes para lidar com nossos problemas de energia e clima. E devemos enfrentar nossos desafios ambientais e climáticos para garantir que nossos filhos e netos herdem um futuro sustentável. Como as maiores economias do mundo, os Estados Unidos e China terão um papel significativo em lidar com esses desafios, assim como outras economias em desenvolvimento, como o Brasil. Nós sabemos que a China é única por sua escala enorme. Mas o lado bom disso é que ela é o maior laboratório no mundo para usar tecnologias limpas de última geração e reduzir gastos. Os Estados Unidos, é claro, continuam a liderar o caminho ao desenvolver tecnologias inovadoras. O Brasil também é uma economia global importante e tem um papel único no mundo, porque precisa balancear seu desenvolvimento econômico com a preservação de seus recursos naturais e sua biodiversidade rica, que são parte crítica dos ecossistemas da Terra.
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