Flutua, mas nem tanto

Quem tomou ao pé da letra as últimas declarações do minis­tro da Fazenda e do presidente do Banco Central de que o câmbio voltou a ser flutuante deve es­tar decepcionado


Ontem pela manhã, quando a cota­ção atingira R$ 2,147, 0 Banco Central interveio. Anunciou um leilão de ven­da no mercado futuro (swap cam­bial) . E foi o que ainda limitou o fecha­mento à alta de apenas 1,75%. (Ao lado, os rastros das cotações do dólar no câmbio interno.)

Aí há dois pontos de análise as causas da disparada e o resultado prático.

Tudo começou dia 22, quando Ben Bemanke, presidente do Federal Re­serve (Fed, banco central dos Estados Unidos) preparou os espíritos para uma virada de sua política monetária.

Hoje, o Fed despeja US$ 85 bilhões na compra de títulos 110 mercado finan­ceiro. Aoperaçao conhecida como afrou­xamento quantitativo (quantitative ea- sing) objetiva criar condições para a retomada da atividade econômica dos Esta­dos Unidos, prostrada pela crise. Desace­lerar ou suspender (ainda não está cla­ro) a operação implica emissão de me­nos dólares do que o esperado e, portan­to, valorização em relação às outras moe­das. Foi a principal razão pela qual o dó­lar ganhou força nos mercados e, com ele, reduziram-se as cotações das merca­dorias negociadas na moeda, sobretudo commodities e ouro.

O movimento coincidiu com a percep­ção mais forte de deterioração da econo­mia brasileira: mais inflação, crescimen­to decepcionante do PIB no primeiro tri­mestre e, fator relativamente novo, au­mento do rombo das contas externas. Esse último está caracterizado pelo avanço do déficit em Conta Corrente, onde são contabilizadas entradas e saídas de moeda estrangeira no comércio de mer­cadorias e serviços e nas transferências ao/do exterior. E o melhor indicador pa­ra avaliar necessidades futuras de moe­da estrangeira. Em quatro meses, o rom­bo saiu de 2,4% para 3,0% do PIB.

Isso não é tudo. A ênfase do ministro Guido Mantega e do presidente do Ban­co Central, Alexandre Tombini, de que não interviriam mais no câmbio havia si­do entendida como aviso de que o gover­no tem especial interesse na desvaloriza­ção do real, com o objetivo aparente de melhorar a competitividade do setorpro- dutivo, principalmente da indústria.

A atitude de Mantega e de Tombini não foi dizer que "câmbio é assunto so­bre o qual as autoridades não falam", Nem foi reafirmar que, no Brasil, conti­nua em vigor o regime de "flutuação su­ja". Foi garantir que não haveria intervenção, aríão serve paraevitar excessiva volati­lidade dos fluxos (entrada e saída de dólares), o que não aconteceu.

Independentemente do que dizem is autoridades, o leilão de ontem mostra que há limites para a desvalorização do real. Elas não olham só para a premencia de garantir competitividade à indústria. Temem que uma disparada cambial tur­bine a inflação e ponha muito a perder.

Quai é o limite? Provavelmente, nem cias sabem. Mas já dá para avaliar que, se a persistir, apenas alta de maio pode ser suficiente para puxarem 0,4ponto por- centual a inflação dos próximos meses.

O govemo parece desnorteado com a piora cios fundamentos da economia.

A força do dólar
A curva acima não reflete a desvalorização do ouro nem uma eventual melhora da economia global - já que o ouro é o "metal do medo" e a queda das cotações poderia ser indicação de que se reduzira o risco. A curva reflete a valorização do dólar. Ou seja, a partir da fala deBen Bernanke, presidente do Federal Reserve (Fed, banco central dos Estados Unidos), o dólar passou a comprar mais ouro do que antes

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