Um sinal pontual de alerta dos investidores externos

O governo brasileiro aceitou um leve aumento de juros, de 2,69% ao ano para 2,75%, quando tomou, na quinta-feira, Us$ 750 milhões no mercado global de títulos da dívida soberana

O governo brasileiro aceitou um leve aumento de juros, de 2,69% ao ano para 2,75%, quando tomou, na quinta-feira, Us$ 750 milhões no mercado global de títulos da dívida soberana. A aceitação de juros mais altos tem alguns significados, que convém não ignorar.

Primeiro, o País não precisa de recursos. Dispõe de reservas cambiais de US$ 378,3 bilhões, praticamente estáveis nos últimos 12 meses, oscilando apenas entre US$ 370bilhões e US$ 380 bilhões. A tomada de recursos foi para testar o interesse dos investidores estrangeiros pelos papéis brasileiros e criar parâmetros para colocações privadas.

Segundo, os emissores habituais de papéis - sejam eles governos ou empresas - devem contribuir para ampliar a liquidez dos demais títulos em circulação e facilitar as renovações de títulos de dívida.

Mas, embora a demanda tenha sido muito superior à oferta, a necessidade de pagar juros mais altos significa que é menor a aprovação - por ora, em termos bastante moderados - da política econômica local.

Os papéis colocados pelo Tesouro são de longo prazo, com vencimento em 2023. Ou seja, os aplicadores estão atentos à solvência do Brasil nos próximos dez anos. Déficits comerciais como os do primeiro quadrimestre são um fator negativo, mas, em especial, os investidores avaliam com atenção a política fiscal - e é esta que mais deixa a desejar. Há apenas uma semana, o secretário do Tesouro, Arno Augustin, declarou que o Brasil deixa de ter uma meta de superávit primário, sinal de um relaxamento fiscal desnecessário e que contraria ainda mais uma política bem-sucedida de preservação da higidez fiscal.

A demanda dos investidores por títulos brasileiros se deve à comparação com as alternativas. O País notabilizou-se como pagador pontual da dívida externa - e esta foi reduzida, na década passada.

A classificação dos títulos soberanos brasileiros pelas agências de rating é considerada rigorosa. Ou seja, seria justo uma classificação melhor para o Brasil. É o que explica o fato de que o spread dos títulos colocados nesta semana tenha sido de apenas 98 pontos básicos acima do papel norte-americano com o mesmo prazo de vencimento. Aliás, o spread foi o menor já registrado nas colocações de papéis soberanos.

O custo ligeiramente maior deve ser interpretado pelas autoridades como uma advertência pontual: a política fiscal responsável da década passada não deveria ser arranhada, como vem ocorrendo.
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