Economia brasileira piora, dizem especialistas


Especialistas estão céticos e críticos com a condução econômica de Dilma Rousseff. Na opinião da maioria deles, a opção por uma política mais expansionista pode ter sérias consequências para as gestões futuras, principalmente no que diz respeito ao endividamento público. E há quem diga que ocorrem divergências entre os próprios integrantes da equipe da presidente da República.

Na opinião do economista da Tendências Consultoria, Felipe Salto, com a sinalização de que o governo deixou de lado a busca por atingir a meta do superávit primário (economia para o pagamento dos juros da dívida pública) para elevar a demanda e a produção, corre-se o risco "cada vez maior" de elevação da dívida relacionada ao Produto Interno Bruto (PIB) no médio prazo. "O governo está operando com o esforço fiscal perto do seu limite. Apesar de nossa previsão para o endividamento ser de 35% neste ano, não seria surpresa se viesse acima do patamar de 2012 [de 35,1%]", diz Salto.

Com este cenário, a Tendências revisou de 1,8% para 1,6% do PIB a expectativa do resultado do superávit primário deste ano. Ou seja, a meta de 3,1% do PIB não vai ser cumprida, mesmo com uma expectativa de alta de 3% do PIB, com viés de baixa, para 2013.

"Nossa visão sobre as diretrizes de política econômica é de intervencionismo, controle da inflação por meio de instrumentos heterodoxos substitutos da política monetária - ainda que algum aumento dos juros continue a ser promovido -, preservação das desonerações, com elevado custo fiscal, sacrifício de mais resultado fiscal", afirma Salto.

Quando levado o questionamento sobre a atual gestão econômica para representantes de classes, eles também seguem com as críticas.

Antônio Lanzana, assessor econômico da FecomercioSP, compartilha da opinião do analista da Tendências Consultoria. Ele também acredita no risco do aumento do endividamento público com a continuidade da atual política expansionista de Dilma Rousseff. Contudo, ele afirma que esse cenário deve ficar mais grave daqui quatro a cinco anos. "O maior problema a se preocupar não é a solvência futura do governo, é que há expansão dos gastos do custeio [da máquina pública] para incentivar a demanda interna que não está tendo resposta da produção. O resultado disso é a pressão inflacionária, que estamos passando. E o governo está demorando para perceber isso", analisa Lanzana.

Lanzana comenta também que a inflação, ao mesmo tempo, que corrói o poder de compra da população, junto com o estímulo dado pelo governo ao consumo, faz com que a população se endivide para "não perder seu estilo de vida", o que "deteriora cada vez mais o quadro econômico. "E o governo sinaliza que vai manter essa política, ainda mais porque virá um fôlego adicional com a diminuição dos preços dos alimentos, devido a excelente safra agrícola no segundo semestre", aponta o economista.

Por outro lado, o presidente da Associação Brasileira do Agronegócio, Luiz Carlos Corrêa Carvalho, critica o fato de não existir uma política voltada para o setor, com a visão de longo prazo e ações "para mitigar os riscos elevados da produção, seja para alimentos ou para energia renovável". "Há, em soluços, medidas cuja coordenação inexiste e um número enorme de Ministérios com visões diferentes", avalia.

Questionado sobre quais incentivos que faltam ao agronegócio, ele aponta os problemas referentes ao seguro rural, de caos logísticos e dos portos e de separação do agronegócio em pequeno e grande. "De qualquer forma, esperamos novamente recorde de produção do setor, pelo desempenho privado e pelo trabalho consistente da Embrapa."

Já o economista Amir Khair, mestre em finanças públicas, não endossa a opinião de que estão erradas as ações de estímulo ao consumo em contrapartida ao abandono do esforço fiscal. "Nós somos o único país que analisa o superávit primário, os outros trabalham com resultados nominais [que inclui o superávit primário e os juros nominais apropriados]. E nós reduzimos o nosso déficit de 3,3% do PIB no governo anterior ao de Dilma para 2,5%", diz, apesar de prever também que o superávit ficará entre 1,5% a 2% do PIB.

Questionado qual seria o motivo, então, para não haver investimentos públicos na produção para aumentar a oferta e diminuir a inflação, Khair aponta a política cambial como um problema. "Não temos que desvalorizar ainda mais nossa moeda. A oferta não consegue ocupar o espaço deixado pelo aumento do consumo [público ou da população] porque isto vaza para as importações. O câmbio está fora do lugar. Nós teríamos que ter uma taxa próxima a R$ 2,80 para ter mais competitividade, como aconteceu entre 2003 e 2007", diz.

Os demais especialistas são unânimes em apontar o aumento dos investimentos como a solução para um crescimento sustentável do PIB. Para Salto, a maneira de se fazer é o governo gerar mais poupança interna. Ou seja, gastar menos. Segundo Lanzana, "não haverá outra maneira se não atrair recursos privados".

Os especialistas apontam que sem uma política expansionista mais voltada para investimentos principalmente em infraestrutura, sobra para a política monetária tomar medidas para controlar a inflação, o que revela essa dicotomia entre políticas fiscais e do Banco Central. Contudo, para eles, o aumento da taxa de juros que deve seguir nos próximos meses não deve ser suficiente para a convergência do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) para o centro da meta, de 4,5%.

O economista sênior do Santander, Cristiano Souza, comenta que aumentos graduais de 0,25 ponto percentual permitem uma inflação mais próxima dos 6% e não dos 4,5%. "Vemos uma timidez no Banco Central até pelo fato de dois diretores terem votado pela manutenção da taxa Selic [em 7,25% até o último Copom]", analisa o especialista, que projeta Selic a 8% ao final do ano.

A Tendências estima que haverá mais três altas (além da primeira) de 0,25 ponto percentual. E que a inflação feche 2013 em 5,6%. O economista da Fecomercio prevê IPCA a 5,8%. 
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