Produção certa. Destino, nem tanto

O motivo do desempenho foi a estiagem, que castigou a safra anterior, sobretudo as lavouras de soja. Na temporada atual, 2012/13, a oleaginosa retoma a dianteira e vai a 81,6 milhões de toneladas, enquanto o cereal se aproxima das 74 milhões de toneladas. Nos dois casos há principalmente recuperação do potencial produtivo, mas também ampliação de área, produção e produtividade. 

A grande diferença entre as duas culturas está na liquidez, na garantia de preço e mercado, com vantagem disparada da soja. O milho também tem preço e mercado garantidos, mas no mercado interno. Qualquer variação para cima na oferta terá de buscar espaço no comércio internacional. Do total a ser produzido na atual temporada, pelo menos 20 milhões de toneladas podem ser consideradas como volume excedente exportável. A considerar a falta de tradição e histórico nos embarques, isso significa que teremos problemas.

Em 2012, o país mandou para o exterior 20 milhões de toneladas. Algo quase impossível de se imaginar. Isso só foi possível graças à quebra na produção de milho dos Estados Unidos, o grande produtor e exportador mundial. Em 2013 teríamos, então, de exportar as 20 milhões de toneladas e um pouco mais, a considerar que vamos colher uma safra maior. Mas isso em tese, porque com a possível recuperação dos norte-americanos, a produção brasileira entra em campo minado e destino incerto.

Há dez anos as exportações de milho pelo Brasil eram praticamente nulas. Os primeiros embarques, realizados pelo sistema cooperativo, se resumiam a poucas toneladas. Nessa época, o Brasil produzia cerca de 40 milhões de toneladas, a safrinha ou 2.ª safra ainda era menor que a de verão e o Mato Grosso nem imaginava produzir milho em escala comercial. Enquanto o Paraná é o principal produtor de milho total, o estado do Centro-Oeste hoje é o produtor no inverno.

A realidade, então, é outra. Foi-se o tempo em que o milho era apenas para alimentação animal, para fazer silagem ou ser convertido em carne de frango. A avicultura ainda é o principal cliente do cereal brasileiro. Mas insuficiente para atender à crescente oferta, que se não encontrar vazão no exterior vai provocar impactos estruturais à cadeia, em termos de preço e rentabilidade. Uma discussão que merece atenção especial não apenas da cadeia produtiva, mas dos setores público e privado, a julgar pelos reflexos cada vez mais ampliados que o agronegócio tem sobre outros segmentos da economia.

No ritmo em que cresce a produção de milho no Brasil, em até dez anos não há dúvidas de que o cereal está produzindo mais do que a soja. Uma oportunidade. Mas, para não colocar em risco o futuro da atividade, este é o momento de planejar essa expansão, dentro e fora da porteira. Para produzir mais é preciso ter mais demanda, interna e internacional, o que implica em aumentar o consumo para alimentação humana e animal, bem como consolidar e conquistar novos mercados no exterior.

O potencial a ser explorado, seja em área ou tecnologia, não poderá ser sustentável se não estiver alinhado com a ponta do consumo. É preciso estar muito claro por que, para o quê e para quem vamos ampliar a produção. Dificilmente a cultura vai conseguir expressar a importância econômica da soja. Mas pode tentar e talvez chegar perto.
Expedição

O milho será alvo do levantamento técnico-jornalístico específico da Expedição Milho Brasil 2012, que será lançada hoje em Cuiabá (MT). O projeto, que vai a campo discutir as variáveis que vão impactar de forma decisiva no mercado interno e na exportação, reúne grandes agentes de vários elos da cadeia produtiva. Além da equipe do Agronegócio Gazeta do Povo, a sondagem contará com analistas da consultoria FCStone e do Instituto Matogrossense de Economia Agropecuária (Imea).

Exportação

Um dos grandes desafios do Brasil, tema que também vai pautar as discussões do Milho Brasil, é manter o desempenho nas exportações de milho como condição à sustentabilidade do investimento na cultura no país. Na temporada 2011/12, o Brasil assumiu, temporariamente, a posição de maior exportador mundial do cereal. Essa conquista tem a ver com a frustração de safra nos Estados Unidos e na Argentina. Manter a ponta à frente dos EUA é quase impossível. Mas dá para sonhar em se garantir no segundo lugar, o que vai depender do resultado em produção e embarques argentinos, bem como da habilidade do Brasil em fidelizar os parceiros internacionais.
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