O aumento do crédito suscita dúvidas

Em março, o saldo das operações de crédito aumentou 1,8%, atingindo R$ 2,427 trilhões, segundo nota do Banco Central divulgada ontem



Em março, o saldo das operações de crédito aumentou 1,8%, atingindo R$ 2,427 trilhões, segundo nota do Banco Central divulgada ontem. Como a inflação foi de 0,47%, houve alta real do estoque de crédito, numa hora em que as pressões inflacionárias continuam fortes e seria prudente conter o crescimento real do consumo. Como proporção do Produto Interno Bruto (PIB), o crédito total aumentou de 53,3% para 53,9%, um recorde.

Os bancos governamentais e as operações direcionadas (cujo custo é menor ou subsidiado) foram os principais responsáveis pela expansão do crédito. Na comparação entre março de 2012 e março de 2013, as operações de capital de giro feitas pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) aumentaram 30,2%, quase o dobro do aumento dos recursos para investimentos (+15,6%), calculou a consultoria LCA. O peso dos bancos públicos na oferta de crédito passou de 44%, em março de 2012, para 48,7%, no mês passado.

Está, pois, em curso um processo de estatização do crédito, com reflexos negativos no longo prazo, caso as concessões sejam menos rigorosas e haja maior inadimplência.

Entre fevereiro e março, o total do crédito às pessoas jurídicas cresceu em ritmo superior ao das pessoas físicas. Nas empresas, é um sinal de retomada da atividade mercantil, num momento de grave aperto financeiro para grande parte das companhias. Mas, nas famílias, há indícios de comedimento na tomada de crédito. Em termos reais, diminuíram tanto os financiamentos à aquisição de veículos quanto no cheque especial. Os dados são compatíveis com a tendência de queda dos níveis de inadimplência nas operações com recursos livres.

A melhor notícia para os tomadores é a diminuição de 0,5 ponto porcentual, no mês, e de 6,2 pontos porcentuais, em 12 meses, dos juros cobrados das pessoas físicas, hoje em 24,4% ao ano.

Ainda há, no entanto, uma brutal diferença entre os juros médios totais e os juros dos empréstimos direcionados (de apenas 6,6% ao ano nas operações com pessoas físicas).

A diferença se deve à histórica política de intervenção do governo no mercado de crédito, que privilegia alguns tomadores em detrimento de outros. Quando o custo dessas benesses ficar explícito, será mais fácil reavaliar a política creditícia. Mas, enquanto isso não ocorre, a demanda de crédito carimbado continuará crescendo, muitas vezes à custa do Tesouro.

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