Economia sem fôlego


Em recente entrevista para o jornal Valor, o economista, chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), Olivier Blanchard, manifestou a opinião de que o crescimento potencial da economia brasileira parece menor do que pensava, acrescentando que "a margem de manobra para usar políticas de estímulo à demanda é provavelmente limitada".  A constatação do professor Blanchard é irretorquível. A economia brasileira vem, nos últimos anos, dando sinais persistentes de perda de fôlego, apesar das políticas fiscal e monetária expansionistas em curso desde 2011. Ao mesmo tempo, a inflação permanece em patamares elevados, acima da meta de 4,5% ao ano, com os índices de difusão mostrando a ocorrência de um fenômeno disseminado de aumento de preços.

Numa situação como essa, seria de esperar que a política econômica fosse reorientada na direção de ações destinadas a aumentar acapacidade de crescimento do País, deixando de lado instrumentos que somente fazem sentido quando a demanda efetiva se encontra abaixo do PIB potencial. A insistência no expansionismo fiscal e monetário apenas agrava o processo inflacionário e aumenta as incertezas nos agentes econômicos, com pouco ou nenhum efeito sustentável sobre a atividade econômica.

Contudo, persiste forte no governo a ideia de que os estímulos à demanda são a fonte do crescimento econômico. Não há outra explicação plausível para o crescente afrouxamento da política fiscal, seja pela redução do superávit primário efetivo do governo central, seja pelo relaxamento das regras fiscais aplicáveis aos Estados e municípios. Da mesma forma, os estímulos à expansão do crédito pelos bancos públicos, notadamente pelo BNDES, com taxas de juros subsidiadas e com recursos providos pelo Tesouro, indicam um diagnóstico equivocado, como se a economia brasileira estivesse numa situação recessiva por insuficiência de demanda.

No âmbito da política monetária, a percepção não é muito diferente. Apenas na última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) é que o Banco Central finalmente começou um movimento de alta das taxas de juros, após meses e meses de expectativas inflacionárias persistentemente acima da meta de inflação.

Persiste forte no governo a ideia de que os estímulos à demanda são a fonte do crescimento econômico

Para desencorajar a elevação da taxa básica de juros, o governo havia tentado de tudo: desonerações fiscais variadas, não repasse pela Petrobrás no mer- I cado interno do aumento dos preços internacionais dos combustíveis, apelo a governadores e prefeitos para o adiamento dos reajustes das tarifas dos transportes públicos, entre outros expedientes. Como esperado, esse esforço de pouco adiantou. Serviu apenas para aumentar o desconforto da popula-cão com a inflação nos últimos meses.

Assim, no afã de obter um PIB maior no curto prazo, o governo está pondo em risco conquistas que foram obtidas a duras penas nas últimas décadas. Não é comprometendo a responsabilidade fiscal e a autonomia do Banco Central que se eleva o potencial de ores-j cimento da economia. Ao contrário, desconfianças em relação à qualidade da política macroeconômica afastam o investimento privado, cujo aumento é essencial para o crescimento. Aliás, o descolamento observado recentemente entre o comportamento da Bolsa brasileira e as de outros países emergentes é evidência da percepção negativa dos investidores em relação à condução da política econômica.

Cabe reconhecer que há iniciativas louváveis do governo para estimular o investimento privado, como é o caso da reformulação das regras de concessão de Rodovias, ferrovias e portos. Contudo, tais iniciativas acabam perdendo força diante das hesitações e dos equívocos da política macroeconômica, assim como em razão do excessivo intervencionismo que acaba gerando insegurança jurídica nos agentes econômicos.

A retomada do fôlego da economia brasileira para crescer sustenta-velmente depende do afastamento das incertezas macroeconômicas e da adoção de políticas públicas direcionadas ao aumento da produtividade e da taxa de investimento. Para tanto, o foco deve deixar de ser o curto prazo, pois, como disse Blan-chard, a margem de manobra para o uso de políticas de estímulo da demanda se esgotou. 
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