Cautela deve ser a tônica do BC mesmo se o juro subir

O Banco Central (BC) vem dando indicações cada vez mais fortes do início de um novo ciclo de aperto monetário

O Banco Central (BC) vem dando indicações cada vez mais fortes do início de um novo ciclo de aperto monetário. Se a decisão for por efetivamente subir os juros básicos, a fragilidade da atividade econômica recomenda que o processo seja conduzido com a mesma cautela que caracterizou a estratégia do Comitê de Política Monetária (Copom) até agora.

Embora existam evidências de que a economia brasileira finalmente entrou num ciclo de expansão gradual, esse cenário ainda é cercado por incertezas. Sua concretização depende, em boa medida, da transmissão dos estímulos monetários introduzidos desde fins de 2011, que atuam de forma defasada.

O Produto Interno Bruto (PIB) é uma variável essencial nas decisões sobre juros, não porque o Copom tenha uma meta para o crescimento, mas porque o grau de aquecimento da economia tem repercussões efetivas sobre a inflação, como disse o diretor de política econômica do Banco Central, Carlos Hamilton de Araújo, na divulgação do relatório de inflação de março, ocorrida há três semanas.

Na sexta-feira, o Banco Central publicou o seu índice de atividade econômica de fevereiro, o IBC-Br, também conhecido como o "PIB do BC". A queda, de 0,52%, ficou em linha com as projeções dos analistas do mercado, segundo informações coletadas pelo Valor Data.

Embora esperado, o dado causa inquietações. O número é negativo. E pela enorme discrepância nas projeções do mercado financeiro, que variavam de queda de 0,2% e de 1,2%, remanesce entre os analistas econômicos um altíssimo grau de incerteza sobre a evolução da atividade.

Dados da Pesquisa Mensal do Comércio divulgada na semana passada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontaram uma queda de 0,4% nas vendas do chamado comércio restrito (exclui carros e materiais de construção) entre janeiro e fevereiro. Como todo indicador de alta frequência, essa estatística deve ser interpretada com alguma reserva. Mas não deixa de ser um sinal amarelo sobre o vigor do consumo, hoje o principal componente de sustentação da demanda agregada.

Economistas ouvidos pelo Valor levantam a hipótese de a inflação estar corroendo o poder de compra da população. A preservação da renda real é essencial para a sustentação da demanda doméstica. É bom lembrar que o cenário de trabalho do BC já contemplava uma desaceleração nas altas taxas de expansão do consumo. O crédito e a renda real já se expandem com mais moderação.

A leitura dos dados econômicos não está sendo fácil para ninguém. Em janeiro, quando se avolumavam evidências de que a inflação estava se tornando mais alta e resistente, ainda havia economistas influentes no mercado prevendo que o Banco Central seria obrigado a cortar os juros em um ponto percentual, em face da debilidade do PIB.

Nas semanas que antecederam a divulgação dos dados do IBGE sobre o PIB do quarto trimestre de 2012, poucos analistas do setor privado esperavam que os investimentos fossem voltar a crescer, rompendo quatro períodos seguidos de contração.

O Banco Central tem afirmado que os indicadores antecedentes apontam para a continuidade da expansão dos investimentos. Mas só os dados do PIB do primeiro trimestre, a serem divulgados em 29 de maio, poderão confirmar essa visão.

O panorama internacional também é cercado de incertezas. O Japão anunciou recentemente que irá duplicar a base monetária em dois anos. Dados sobre o desemprego nos Estados Unidos apontaram criação de vagas abaixo do esperado em março, levantando dúvidas sobre o ritmo da recuperação. O Banco Central do México cortou os juros básicos em 0,5 ponto percentual às vésperas de a alta de preços estourar o teto admitido no regime de metas de inflação.

O manejo cauteloso dos instrumentos de política monetária, porém, não deve significar leniência com a inflação e é essencial para assegurar a continuidade do crescimento da economia. O IPCA acumula inflação de 6,59% nos 12 meses encerrados em março, acima do teto de 6,5% definido para o ano-calendário de 2013.

A alta generalizada de preços encurta os horizontes de planejamento das famílias e empresas, derruba consumo e investimento. O Banco Central, porém, deve seguir atento a um balanço de risco que, de um lado, tem a inflação alta e, de outro, a baixa expansão do PIB.

Compartilhar

About Paulo Roberto Melo

0 comentários:

Postar um comentário